Aos seis anos, Andong está obcecado, e nada, nem mesmo a reprovação constante da mãe, faz ceder a sua persistente paixão. Não foi portanto surpresa para ninguém quando, certo dia fatídico, o precoce rapazinho entrou num frenesim com a perspectiva de finalmente aterrar no muito cobiçado amor da sua vida.
Sabina deixa a Suíça e a mãe para ir para o Azerbaijão, onde mora o seu pai e a sua irmã. Com uma carga emocional razoável às costas, ela está a tentar equilibrar-se entre dois mundos, duas cidades, duas culturas, duas identidades. Ela tenta aproximar as coisas, construir-se a si própria e desconstruir a imagem do pai-herói. A cultura do Azerbaijão e a sua tradição rígida mudam o modo de funcionamento das coisas a que estava habituada: o que é bonito na Suíça é uma ordinarice no Azerbaijão, mas ela está disposta a ficar. Uma viagem emocional ao interior de uma família desintegrada, através dos olhos de uma menina de 17 anos e da lente de Eileen Hofer, que se recusa a decidir entre o documentário e a ficção e cria um retrato honesto, que cruza culturas, da vida, da auto-descoberta e do abandono que ganha duas irmãs: Sabina e Narmina. (Nina Veligradi)
Um prédio-elefante foge de uma cidade construída com tijolos animais.
Um homem magrinho, um homem vulgar, acorda e pensa: “Tem que ser hoje!”. Acontece que este homem magrinho tem uma coisa muito importante a fazer, apesar de algumas tarefas e alguns azares domésticos não o deixarem cumprir o seu objectivo com muito sucesso ao longo de um dia que parece durar a vida inteira.
Maya conta um incidente da sua infância e no “último acto” ganha finalmente coragem para dizer ao pai que estava errado. O filme baseia-se num incidente verídico que envolve o espancamento até à morte de um miúdo.
Um encontro acidental entre uma pessoa que espera e outra que foge.
Esta é a história de um solitário chamado John. John vive sozinho a sua vida tentando relacionar-se com o que ou quem puder. Por vezes, é difícil distinguir o riso histérico do choro histérico.
Quando esvaziamos a casa onde vivemos toda a vida, encontramos memórias adormecidas. Pedro encontra uma história do passado que o liga e à família a uma organização revolucionária armada dos anos 1980, a época em que o seu pai desapareceu. Pedro terá que revisitar o passado e nessa viagem vai acordar os sobreviventes e trazer os fantasmas à vida. Antes, o que interessava ao seu pai e aos camaradas dele eram os seus ideais políticos. Hoje, o que interessa a Pedro é acordar a história humana que toda a gente tentou esconder e esquecer. Um dia, há que fazer alguma coisa, inesperadamente. Como “Águas Mil”.
O tempo está óptimo na ilha mediterrânea de Formentera, perto de Ibiza: o seu Verão e tudo o resto está à solta. Nina e Ben, um casal dinamarquês/alemão nervoso, chegam de férias para se afastar do trabalho, do filho e da rotina diária. Uma vez ali, interagem com os amigos pós-hippies de Ben. Tudo parece relaxado até que o espírito livre dos hippies interfere com os limites do casal e Ben começa a flirtar com Mara. É o momento crucial no guião em que as coisas mudam de direcção e em vez de termos um casal que restabelece uma ligação, temos um pesadelo existencial para ambos os protagonistas, quando um membro do trio ‚ Mara ‚ desparece. As estruturas sofrem um abano, a culpa entra na relação e o guião num território negro abaixo do sol mediterrâneo. Um estilo disciplinado de realização e uma cinematografia que não é à prova do sol e absorve cada vislumbre de luz. (Nina Veligradi)
A paixão pelos carros e pela velocidade na estrada absorve a vida de Alex, afastando-o cada vez mais da sua companheira Rachel e da filha de ambos. Ao conduzir o seu carro amarelo na via rápida, Alex atropela, sem querer, um jovem, e foge. Um sentimento de culpa crescente faz com que Alex não consiga esquecer o incidente. Primeira longa-metragem de Christophe Sahr, Voie Rapide é sem dúvida uma das grandes surpresas do cinema francês actual, pondo em marcha uma narrativa bem sustentada e um domínio seguro das imagens, que nalguns pontos do filme são um piscar de olho a Cronenberg e ao seu filme Crash. (Catarina Cabral)
A família não precisa de histórias, necessita apenas de ser observada, como o faz de forma exemplar esta 2¬™ longa metragem de Radu Jude, cineasta há muito ligado ao IndieLisboa. O que poderia ser um início de férias feliz transforma-se num terrível pesadelo para este pai que só quer estar com a sua filha, de quem vive separado, por força do divórcio. A espiral de violência que o filme propõe é conscientemente usada pelo realizador através do uso de planos apertados e câmara à mão, criando um huit-clos do qual o espectador se sente tão preso como o personagem. E se acham que os filmes servem apenas para contar histórias extraordinárias, olhem para dentro de casa. A seguir observem os vossos quintais. (Miguel Valverde)
“…All the Stars” segue a história de Lea, um jovem que cai num precipício, sobrevive, e depois desse acontecimento tremendo pensa possuir uma espécie de dom de sobrevivência que mostra aos amigos mais próximos. Mas este “dom” acaba por escravizá-lo com um peso insustentável que ele não consegue tolerar, a fama.
Dois amigos polacos trabalham ilegalmente numa serração na Noruega. Um acidente abala a sua existência e a consciência do espectador. Uma realização forte, pontuada por pequenos momentos e planos de extrema intensidade. Uma abordagem humana, sem excesso de sentimentalismo e que faz pensar. (Carlos Ramos)
Através da guitarra e voz de António Zambujo, um dos mais consagrados fadistas portugueses, ouvimos a melodia de um homem que se recusa crescer, preso às memórias de infância. Com um traço cuidado e curiosas metamorfoses que transportam a passagem do tempo, apetece-nos escutar/ver à exaustão esta emotiva despedida da infância. (Miguel Valverde)
Rodri está perto dos 47 anos e há oito que não trabalha. A irmã mais velha tenta ajudá-lo, mas não é fácil convencê-lo a aceitar um emprego que não esteja à altura das suas aspirações. Um drama familiar em que todos se zangam porque todos se adoram. (M. Moz)
Em poucos minutos e ainda menos palavras somos confrontados com uma história breve e que se repete três vezes por ano, durante sete horas. (M. Moz)
Ghali e Mohammed são dois amigos que vivem em Casablanca. Um é filho de uma família rica e o outro o seu empregado. Eles bebem álcool e querem passear com uma rapariga sem serem assediados, enquanto tentam manter-se vivos, jovens. Mas o que se pode fazer num país corrupto que odeia a sua juventude? (Karim Shimsal)
No meio da floresta, um homem velho insiste em resistir ao desconcerto do mundo. Os únicos sons a que se permite são os da Natureza à sua volta, da máquina de escrever onde redige os seus pensamentos. Um documentário imprescindível sobre a vivacidade e a lucidez nos olhos de um homem que recusa a hipocrisia e a mundanidade. (P. C.)