Uma casa silenciosa, de porta aberta no meio da noite. Mas a paz é uma ilusão ‚ um filho mata o pai com as suas próprias mãos e caminha as quatro horas seguintes até à esquadra, os pés descalços em contacto cruel com o chão, para se denunciar. Um crime numa aldeia numa montanha no interior de Portugal e no centro de uma família. (A. P.)
Desaparecido é talvez a palavra-chave para construir este puzzle de memórias que Reginato nos dá. Da janela da torre latino-americana da Cidade do México, lançam-se histórias escondidas durante o conturbado período político do final dos anos 70. Com imagens raras em Super 8, Polvo cose este ensaio poético engenhosamente com guitarras e ogivas. (Miguel Valverde)
Na praça central de Zagreb pessoas reúnem-se para ouvir em directo o julgamento internacional de Ante Gotovina, tenente-general croata, herói no seu país, indiciado por crimes de guerra e contra a humanidade. Apenas vemos as caras das pessoas. Um exercício de estilo sobre o contágio de emoções numa manifestação. (C. R.)
Partindo de uma ideia de díptico, conta-se a história de Anajara e Allison, vista de dois prismas em continuidade. Se os turnos de trabalho de um dificultam a sua vida, o encerramento numa cadeia do outro determina o ciclo da separação. Salaviza, com a sua capacidade fora do comum para dirigir actores amadores, tem, neste filme, uma das suas obras mais precisas. (Miguel Valverde)
Se existe um terreno perfeito entre o documentário e a ficção, no qual um filme cresce em equilíbrio estável, Vigil Vernier encontrou-o de forma inata. A estranheza da rotina de duas strippers de um bar em Orléans mistura-se com as igualmente bizarras festividades anuais em honra de Joana d’Arc. As duas raparigas compreendem-se. De noite são uma ficção de si mesmas, de dia mergulham na narração da vida de outra mulher, e estendem-na para as suas. Um ambiente que não anda longe da cirurgia romântica de Rohmer. No início estamos nervosos, aguardamos o choque, mas a espontaneidade das cores e dos movimentos, dos diálogos, faz com que estes acontecimentos, por mais distantes que possam ser, pareçam tão naturais como a nossa própria rotina. (M. M.)
Um retrato perturbador de uma celebração em Sergipe. Desde a manhã que corpos cobertos de lama deslizam numa liberdade feroz em direcção à floresta, às árvores, aos gritos ou num silêncio de morte. E à noite, até os fogos de artifício podem ser ameaçadores para o público. Para nós. (Possidónio Cachapa)
A música clássica pressupõe alguma formalidade, mas só enquanto tocam ou ensaiam peças mais ou menos elaboradas. No quarto de um acampamento musical, duas violinistas mais velhas tornam-se mulheres em pequenas coisas. Rose, uma flautista de doze anos, quer ser como elas. Uma narrativa bem construída sobre um crescimento forçado e em desarmonia. (A. P.)
Um homem filma, como habitualmente para si, outro homem que se despe. Acredita nesse momento nas palavras da canção de Bethânia que fala da solidão no interior do destino. Mas alguma coisa pode estar a nascer. Ali, no meio dessas solidões de sexo. Uma ficção que filma a simplicidade do amor e das relações no interior da comunidade GLBT de São Paulo. (P. C.)
Noelia busca uma mãe, assim como um personagem procura o seu autor. De mãe em mãe entramos num universo absurdo, acompanhados pela câmara de Noelia que consegue ser tão inconveniente que em certos momentos leva ao desespero. A actriz de La Niña Santa cresceu e mostra-nos que uma boa ideia é um excelente ponto de partida para um filme intrigante e divertido. (M. V.)
O som do silêncio e um tratamento visual da peculiar atmosfera desta cidade devastada da Rússia onde vive Nadya, de 14 anos, são os elementos que nos transportam quase para um planeta completamente diferente. Uma cidade meio fantasma contrasta com os esforços das mulheres que a habitam na sua desintoxicação. A opinião de um geólogo pode ajudar Nadya a decidir o seu futuro. (A. P.)
Uma abordagem poética às diferentes acepções do verbo crescer: para cima, para dentro de algo, na direção de‚Ķ Esta animação de Julia Pott conduz-nos a todas estas possibilidades. O que fazer com um corpo adolescente e desajeitado? Ao tempo em que um amigo é tudo, um momento antes de ficar preso no fundo do nosso oceano pessoal. (Possidónio Cachapa)
Leila está de coração partido. A sua relação acabou repentinamente como um telegrama febril: Apanha um avião stop, voa stop, eu acredito em ti stop, faço isto por nós stop. O que dói mais quando se é abandonado? O facto de ser de um momento para o outro. A decisão que sai da cabeça de uma pessoa sem qualquer pré-aviso. E o outro fica por conta própria a lidar com a solidão. Acabar com alguém não é um bolo de aniversário que se serve como surpresa e, depois de apagadas as velas e de ficar escuro, desaparece-se. É um momento de escolha: proteges-te ou mudas e começas de novo? Se te protegeres bloqueias tudo: a vida, as surpresas, o amor… só fica o tabaco. Leila mudou a sua vida para tentar lidar com o bolo de aniversário. Levanta-se todas as manhãs e põe música a tocar. Está pronta para se apaixonar outra vez, mesmo que isso signifique estar em risco, porque viver é isso mesmo. (Nina Veligradi)
Nesta primeira obra de assinatura a solo, o realizador reflecte as imagens do incêndio do Chiado no seu personagem, que deambula entristecido falando ao telefone. Enquanto o fogo consome os prédios, consolida-se a inevitável ruptura amorosa. Um jogo de projecções cria uma atmosfera sobre-real, reconstruindo-se, assim, uma bela parte do cinema português. (Miguel Valverde)
Venham conhecer o centro de refugiados mais alucinado da Escócia, nesta comédia negra sarcástica. Dois homens peculiares procuram asilo e um modo de vida num mundo absurdo que mistura a realidade desumana da democracia e, como consequência, uma terra de ninguém onde os factos se dissolvem em sonhos de uma existência melhor. (Karim Shimsal)
O baile de finalistas é um rito de passagem, com as suas raízes selvagens devidamente camufladas sob os vestidos de gala. Através de um longo plano, em câmara lenta, acompanhamos a transformação do evento num ritual primário, que inclui um sacrifício e a habitual fotografia de grupo a confirmar a manutenção da ordem. (Ágata Pinho)
Ao fundo uma imagem de Tóquio atravessa quatro painéis. Lado a lado as quatro estações do ano a passarem pela capital japonesa. De um lado para o outro as pessoas e os objectos a passarem da Primavera ao Inverno. Um filme para os olhos se perderem. Uma pequena animação carregada de poesia. (Carlos Ramos)
É preciso olhar para dentro dos olhos cansados de quem espera um dia poder comunicar. Mãe e filha não o sabem fazer. Se calhar o cão pode ajudar, mas não, se calhar também não. André Santos e Marco Leão são vozes novas no panorama nacional e procuram a narrativa para afirmar a sua cinematografia, não descurando porém um lado formal e estético muito apurado. (M. V.)
Na sordidez de um quarto, Maria aguarda. O mundo lá fora é uma mancha encandeante que abre e fecha, destinada apenas a provar-lhe que há lugares de onde não se consegue sair. Um filme-testemunho, duro, insuportável por vezes, sobre aqueles que não conseguindo encontrar o seu lugar no mundo se ocupam a sustentar o peso da pirâmide. (P. C.)