Diálogo de Sombras

Filme que parte da exposição Pedro Costa: Companhia — exposição dedicada ao cineasta português que poderia ser vista como uma colectiva, dado que estava ladeado por artistas como Picasso, Bresson, António Reis, John Ford, Jeff Wall, Godard, Rui Chafes ou Charlie Chaplin — para continuar a criar um diálogo entre o realizador português e as figuras que povoam o seu imaginário.

A Arte de Morrer Longe

Adaptando uma obra do escritor Mário de Carvalho, Júlio Alves (Sacavém, IndieLisboa 2019) ensaia uma comédia agridoce sobre as relações conjugais, as separações e a comunicação. Arnaldo (Pedro Lacerda) e Bárbara (Ana Moreira) pretendem terminar a sua relação. Não sabemos o motivo, apenas que ambos partilham a “paternidade” de uma tartaruga. Quem ficará com a tartaruga? Para onde quererá ela ir? Num jogo do empurra, o animal segue o seu caminho.

À beira da ruptura surge a dúvida, sempre. A primeira longa metragem de ficção de Júlio Alves é uma adaptação de uma obra de Mário de Carvalho, autor que Alves já revisitou em algumas das suas curtas metragens. Agora o universo é o das relação humanas;- no caso, um casal está a separar-se e passa pelo processo sempre doloroso de se saber quem fica com o quê, o que é de quem quando se ofereceu, quem sai e quem fica, quem dá o braço a torcer. As coisas aparentemente não estão assim tão mal mas quem ficará com a tartaruga? A estrutura do filme está muito bem definida com uma composição elegante de planos (Alves sabe filmar muito bem espaços fechados e concretamente casas), os actores (a dupla Ana Moreira/Pedro Lacerda) estão muito bem dirigidos sempre num registo limite do sofrimento/apatia, e a montagem tem um ritmo correcto que nos permite ter a informação certa em cada momento. E a partir daí é só olhar para o espelho, porque Júlio Alves acerta-nos em cheio. (Miguel Valverde)

 

Sacavém

Não é o rotineiro documentário sobre um artista, neste caso o cineasta Pedro Costa, nem tão pouco uma visão equilibrada da sua obra. Entre outros méritos, Sacavém dialoga com essa figura maior do cinema contemporâneo sem recorrer às habituais cauções (depoimentos de terceiros, evocação de prémios e reconhecimento crítico, etc.) ou procurar mimetizar o seu cinema. Júlio Alves encontra a distância justa para ler essa obra sem o peso da reverência ou do pastiche, ligando algumas personagens e objectos recorrentes desde Casa de Lava ao seu próximo filme, mostrando a continuidade entre a visão do realizador e o mundo que lhe serve de matéria e iluminando a singular forma de realismo assombrado por fantasmas e memórias que atravessa o cinema de Pedro Costa. A presença esquiva do próprio no filme de Júlio Alves é também ela exemplar de uma ética de trabalho solitária e artesanal de que os filmes são o testemunho mais eloquente. (N.S.)

A Casa

António, Zé Maria e João vivem na Casa à medida que a constroem. Durante dois anos eles reiniciaram processos vezes e vezes sem conta, de acordo com as suas funções na Casa. As transformações de cada divisão obrigam a constantes mudanças na sua organização. As salas para refeições, para vestir ou descontrair mudam, assim como os seus habitantes. O tempo passa. Os moradores entram e saem de cena. A câmara não os segue, permanece, focada no particular. A luz natural invade os espaços geométricos, intensificando-se à medida que o trabalho avança. O som ambiente também muda. Os silêncios predominam. Os contrastes são cada vez mais fortes. No final, vemos os homens que fazem o filme para alguns, o trabalho para outros, ou simplesmente uma casa.